segunda-feira, 28 de março de 2011

a vida é a variedade... é o desafio... é o palco da única cena... a de cada um!

Coelho Neto

"A vida é a variedade. Assim como o paladar pede sabores diversos, assim a alma exige novas impressões"


as impressões (podem e) são tantas que cabe a "9 semanas & meia" proporcionar algumas.
quem arrisca? quem ousa experimentar?
quem dá espaço à própria alma?

o cinema causa e provoca sensações.
"tranparência viva" é a designação do ciclo de cinema a decorrer por estes dias (ao longo dos 66 dias). Orquídea Selvagem, é hoje!!! É poesia traduzida em imagem e impressões na pele e na alma...

faz bem ler, dizer e ver poesia...

quarta-feira, 16 de março de 2011

"9 semanas & meia" é muito mais do que 66 dias - são noites sem dormir, são dias a sonhar, é paixão pela poesia, é correr por dentro e por fora... experimentem tudo isto assistindo aos 110 momentos (no mínímo)

EPIGRAMA TEOLÓGICO

Nuno Júdice

Concordo com Delmore Schwartz:
«uma mulher nua é uma prova da existência de Deus».
Podia dizer: uma prova suficiente. Apenas
o indispensável para que a dúvida se dissipe,
e o grande cenário do Paraíso se abra
em écran gigante e som estereofónico (sim:
os anjos cantam por cima disto).

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

beija-me o pescoço... abre a blusa e usa a língua entre a pele e a renda que aprisiona os seios...

Arrefece,
dizias. É o frio,
disse eu,
que te acaricia
a pele. Que nela
se aquece. Que nela
se esquece.

9 semanas e meia

Deixa o veneno
levedar no copo. Deixa-o
ser golfo
de sangue, lágrima
ancorada, acidulada
tinta do delírio. Deixa-o
ser lume, fumo, gume
obsceno.

9 semanas e meia

Não digas
beijo, diz
a boca. Não
digas rio, diz
a fonte. Diz
apenas.

9 semanas e meia

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

M. é amor... é bom e faz bem... o resto conta pouco na hora em que o "sim" é palavra e não "suspiro"

O quarto mobilado na viela.
A campainha aos pés da cama.
Não será o amor um laço estreito
entre a angústia e o prazer?

Sandro Penna

para os admiradores... para os que não admiram mas têm curiosidade em ler... para todos os que gostam de "F"

É importante foder (ou não foder)?
É evidente que não, não é importante.
Fode quem fode e não fode quem não quer.
Mas mesmo nada
A ver.

O que um tanto me tolhe é não poder confiar
Numa coisa que estica e depois encolhe,
Uma coisa que é mole e se põe a endurar e
A dilatar a dilatar
Até não se poder nem deixar andar
Para depois sumir
E dar vontade de rir e d´ir urinar.

Isso eu o quiz dizer naquele verso louco que tenho ao pé:
«O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é»
Verso que, como sempre, terá ficado por perceber (por mim até).
........................................................................
Também aquela do «outrora-agora» e do «ah poder ser tu eu»
               foi um bom trabalho
Para continuar tudo co´a cara de caralho
Que todos já tinham e vão continuar a ter
Antes durante e depois de morrer.

Mário Cesariny

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

tem muita graça e não fere os mais púdicos... obrigada RR!

João comprou um par de sapatos novos e chega a casa:



- Maria o que achas?


- Acho de quê?


- Não notas nada de diferente?


- Não...


João vai à casa de banho, tira a roupa toda e volta apenas com os sapatos


novos calçados.


- E agora? Já notas alguma coisa diferente?


- Não, o 'coiso' continua pendurado para baixo, assim como estava


ontem e como estará amanhã!


- E SABES PORQUE É QUE ELE ESTÁ PENDURADO PARA BAIXO?


- Porquê?


- Porque ele está a olhar para os meus sapatos novos!


- Hum... podias ter comprado um chapéu ...
 
 
p.s. a edição 2010 do programa "a poesia está na rua" - humor com humor se paga, explorou o humor e a graça poética. RIR faz sempre bem... mesmo (ou sobretudo) quando tem qualquer "coisa de picante"!!!

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

chegou pela manhã e trazia o perfume da memória... obrigada M.

CONHEÇO O SAL



Conheço o sal da tua pele seca


depois que o estio se volveu inverno


da carne repousando em suor nocturno.



Conheço o sal do leite que bebemos


quando das bocas se estreitavam lábios


e o coração no sexo palpitava.



Conheço o sal dos teus cabelos negros


ou louros ou cinzentos que se enrolam


neste dormir de brilhos azulados.




Conheço o sal que resta em minhas mãos


como nas praias o perfume fica


quando a maré desceu e se retrai.




Conheço o sal da tua boca, o sal


da tua língua, o sal de teus mamilos,


e o da cintura se encurvando de ancas.




A todo o sal conheço que é só teu,


ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,


um cristalino pó de amantes enlaçados.

Jorge de Sena

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

O POETA NU - Jorge Sousa Braga >>>> impossível não gostar da "simplicidade de dizer" deste autor - ora vejam!

diz o autor:

Os poemas que se seguem pretendem aproximar-se da simplicidade (ilusória) de uma gota de água. (...) Por último, um lamento: que estes poemas não possam chegar ao leitor da forma mais apropriada, ou seja, em folhas de trevo.


STRIP-TEASE
Quanto mais me dispo
menos nu
me sinto

9 semanas e meia

A borboleta que poisou
no teu mamilo perdeu
vontade de voar

9 semanas e meia

Vou ao céu
E venho-
-me

9 semanas e meia

Não posso
amar
mais claro

9 semanas e meia

Escrevo
com os dedos ainda longos
da carícia

9 semanas e meia

Ainda agora em ti entrei
e já em todos os teus poros
me achei

9 semanas e meia

Não é a rosas nem a violetas
nem a jasmim o cheiro
que me põe fora de mim

9 semanas e meia

GRANADA
O sumo das romãs
escorre-te
por entre os seios

9 semanas e meia

OPALA
Será de uma gota de esperma
o arco-íris que se desenha
neste poema?

9 semanas e meia

MULHER

Metade mulher metade pássaro
Metade anémona metade névoa

Metade água metade mágoa
Metade silêncio metade búzio

Metade manhã metade fogo
Metade jade metade tarde

Metade mulher metade sonho


9 semanas e meia é aqui usado para anunciar cada um dos textos

...estou à espera da tarde...

Antes que a noite acabe
Acende a luz da minha vida
Com a tua chama, oh, meu Amor!
Estou à espera da tarde
Em que vens pelo caminho trazendo a tua chama,
E o meu coração amadurecido nas suas trevas
Acender-se-á como uma labareda.

Rabindranath Tagore

uma verdadeira delícia...

A EVOCAÇÃO DO CHIMPANZÉ

Alberto Pimenta



comprei um bilhete e um cartucho de amendoins e entrei no cinema. tu compraste um bilhete e um cartucho de amendoins e entraste no cinema, sentámo-nos na mesma fila, lado a lado, eu abri o meu cartucho de amendoins, tu abriste o teu cartucho de amendoins, com um ruído exactamente igual ao meu. voltei-me para ti e mostrei os dentes. Tu voltaste-te para mim e mostraste os dentes. quando a luz apagou, tu pousaste o teu cartucho de amendoins no colo e eu pousei o meu cartucho de amendoins no colo. com a mão direita comecei a levantar-te a saia. para me facilitar a tarefa, tu levantaste levemente as nádegas do assento. com esse gesto, caiu-te do colo o cartucho de amendoins. assim que os amendoins acabaram de se espalhar no chão, abaixei-me para tos apanhar, mas esqueci-me do meu cartucho de amendoins, o qual me caiu igualmente ao chão. gastei um tempo enorme a procurar e a recolher todos os amendoins. lembro-me de que passei o tempo quase todo até ao intervalo recolhendo os amendoins. todo o tempo tu não deixaste de suspirar e de gemer, embora estivesse apenas a decorrer um documentário sobre o narciso e nenhum drama comovente. a voz do locutor lembro-me que dizia: « no começo da primavera, quando montes e vales acordam do longo sono de inverno, centenas e centenas de narcisos elevam as douradas cabeças em todas as frestas e abrigos do solo, e lançam seu olhar inocente pelos portentosos rochedos e pelas raízes nodosas da floresta.» isto, como certamente te lembras, foi antes do intervalo. depois, quantas vezes, oh quantas vezes não deixaste cair e eu deixei cair os amendoins que nos restavam. e ora eu, ora tu, de cada vez descíamos a procurá-los, e a colhê-los com suaves, ternos guinchos. o filme, no dizer da crítica, era daqueles que se não podem perder.

p.s. para os interessados... amanhã no auditório da biblioteca municipal de santo tirso (18:00h) e na voz de Alberto Serra - "9 semanas e meia" inícia a sua aparição [de forma discreta e a meia luz e sem revelar (ainda) o que se segue]

o teu nome acaricia a minha pele... sussurro e mordo o lábio ao som de ti...digo: SIM

QUADRILHA

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história. 

Carlos Drummond de Andrade

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

põe a tua mão...

Põe-me as mãos no sexo,
Beija-me na coxa,
Abre-me no plexo,
Uma ferida roxa.

Eu não sei porquê,
Meu dês d´onde venho,
Sou o ser que vê
Só o seu tamanho.

Põe a tua mão
Num laço sem fim,
E chega ao desvão,
Abre-o para mim.

Mário Cesariny

ontem chovia copiosamente. molhou todos os beijos que demos. as nossas roupas pingaram de tanto amor que fizemos. amor, quero-te...

Sua Excelência: o Amor


Sentado alto do trono
Bem alto, no pedestal,


Amor superior se sente


Diz-se nobre como tal






Veste pele de cordeiro


Quando decide atacar


Deixa as presas indefesas


Cercadas pelo seu olhar






É doce, enganador,


Muito terno, explosivo


Quando quer, arrebatador,


Cruel, se achar preciso






Pode reflectir um anjo


Em seu nome ser demónio


Tudo que enche uma vida


Ser na tristeza o antónimo






É lindo vê-lo a correr


À procura do verdadeiro


Mover mundos e fundos


Quer ele ser o primeiro






Tanto se fala do amor,


Bem, mal, por tudo e nada


Vou guardar o que sei p’ra mim


Deixar-me ficar calada






Anyta, 2009.12.15

p.s. este poema tem a assinatura de uma poetisa tirsense. obrigada, Maria! obrigada, Anyta!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

"nove semanas e meia" edita e agradece...

Luís Vendeirinho



‎"Quando a poesia está na rua há um estranho que traz amor nos bolsos rotos, o vento é feito de esperança, a chuva cai como gomos de alegria sobre o chão macio, quando a poesia está na rua não há portas nas casas, nem janelas cerradas no olhar das crianças, quando a poesia está na rua abrigo-me da minha solidão sob a árvore onde se colhem palavas como beijos, sob cuja sombra se beija como quem diz o nome das coisas para ser inscrito em forma de nuvem, e a poesia é a rua e todos os passos envoltos nas esquinas de que ela é feita..." LV (Abraço de parabéns)

maria, muito obrigada! "nove semanas e meia" deseja a todos os enamorados um excelente "dia dos namorados" e sugere o uso e abuso da poesia, para revelar "sentidos" escondidos em beijos e carícias... viva o amor e viva quem o diz!

Desespero


Inteiramente o perdeu.
E só pensa em procurar
nos lábios que se lhe oferecem
de sucessivos amantes
esses lábios desejados;
e preso num outro abraço
de cada amante se encontra,
só procura a ilusão
de que a ele se entrega
como tanto se entregou.
Inteiramente o perdeu.
Como se nunca existira.
Ele queria -ao que então disse -
poder ainda "salvar-se"
desse terrível estigma
da vergonha que é prazer.
Porque ainda estava a tempo
de fugir e de "salvar-se".
Inteiramente o perdeu.
Como se nunca existira.
Por força do imaginar,
alucinado e iludido,
nos lábios de outros amantes
só procura descobri-lo,
nesses lábios encontrar
a paixão que conheceu.


1923 Contantino Cavafy (traduzido por Jorge de Sena)
13 de Fevereiro de 2011 17:41

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

sugeriste um beijo na face [e eu dei] depois desse beijo surgiu outro [que eu também dei] agora deixo a imaginação livre para os suspiros e as [sugestões]

Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste: talvez. Esta
é a única palavra
que não tem casa. Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio.

Albano Martins

conforme havia sido prometido, eis a lista dos livros que irão povoar o imaginário de "nove semanas e meia"

O POETA NU
[poesia reunida]
Jorge Sousa Braga
Assírio & Alvim

366 POEMAS QUE FALAM DE AMOR
uma antologia organizada por
Vasco Graça Moura
Quetzal Editores

E COMO ERAM AS LIGAS DE MADAME BOVARY?
Francisco Umbral
Campo das Letras

PALINÓDIAS,
PALIMPSESTOS
Albano Martins
Campo das Letras

POEMAS
COM CINEMA
antologia organizada por
Joana Matos Frias
Luís Miguel Queirós
Rosa Maria Martelo
Assírio & Alvim

DO MUNDO GREGO OUTRO SOL
antologia Palatina e antologia de planudes
selecção, tradução e notas
Albano Martins
Edições ASA

A MUSA IRREGULAR
Fernando Asis Pacheco
Assírio & Alvim

MORTAL E ROSA
Francisco Umbral
Campo da Literatura

 ...quanto ao conteúdo de cada obra aguardem, pois "nove semanas e meia" tem todo o prazer de vos proporcionar "deliciosas" leituras! 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"nove semanas e meia" já possui uma mini-biblioteca (amanhã daremos conta dos títulos) - obrigada Alberto Serra

POEMA



Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.


Mário Cesariny de Vasconcelos

finjo não ver... finjo não querer... finjo ainda que prefira despir a mentira...

DE:   CAFÉ

                                       (Finjo que não vejo as mulheres
                                       que passam, mas vejo.)

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atravessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda...

E a Que-Sempre-Tanto-Se-Recata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.

José Gomes Ferreira