Antes que a noite acabe
Acende a luz da minha vida
Com a tua chama, oh, meu Amor!
Estou à espera da tarde
Em que vens pelo caminho trazendo a tua chama,
E o meu coração amadurecido nas suas trevas
Acender-se-á como uma labareda.
Rabindranath Tagore
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
uma verdadeira delícia...
A EVOCAÇÃO DO CHIMPANZÉ
Alberto Pimenta
comprei um bilhete e um cartucho de amendoins e entrei no cinema. tu compraste um bilhete e um cartucho de amendoins e entraste no cinema, sentámo-nos na mesma fila, lado a lado, eu abri o meu cartucho de amendoins, tu abriste o teu cartucho de amendoins, com um ruído exactamente igual ao meu. voltei-me para ti e mostrei os dentes. Tu voltaste-te para mim e mostraste os dentes. quando a luz apagou, tu pousaste o teu cartucho de amendoins no colo e eu pousei o meu cartucho de amendoins no colo. com a mão direita comecei a levantar-te a saia. para me facilitar a tarefa, tu levantaste levemente as nádegas do assento. com esse gesto, caiu-te do colo o cartucho de amendoins. assim que os amendoins acabaram de se espalhar no chão, abaixei-me para tos apanhar, mas esqueci-me do meu cartucho de amendoins, o qual me caiu igualmente ao chão. gastei um tempo enorme a procurar e a recolher todos os amendoins. lembro-me de que passei o tempo quase todo até ao intervalo recolhendo os amendoins. todo o tempo tu não deixaste de suspirar e de gemer, embora estivesse apenas a decorrer um documentário sobre o narciso e nenhum drama comovente. a voz do locutor lembro-me que dizia: « no começo da primavera, quando montes e vales acordam do longo sono de inverno, centenas e centenas de narcisos elevam as douradas cabeças em todas as frestas e abrigos do solo, e lançam seu olhar inocente pelos portentosos rochedos e pelas raízes nodosas da floresta.» isto, como certamente te lembras, foi antes do intervalo. depois, quantas vezes, oh quantas vezes não deixaste cair e eu deixei cair os amendoins que nos restavam. e ora eu, ora tu, de cada vez descíamos a procurá-los, e a colhê-los com suaves, ternos guinchos. o filme, no dizer da crítica, era daqueles que se não podem perder.
p.s. para os interessados... amanhã no auditório da biblioteca municipal de santo tirso (18:00h) e na voz de Alberto Serra - "9 semanas e meia" inícia a sua aparição [de forma discreta e a meia luz e sem revelar (ainda) o que se segue]
o teu nome acaricia a minha pele... sussurro e mordo o lábio ao som de ti...digo: SIM
QUADRILHA
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Carlos Drummond de Andrade
João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi pra os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
põe a tua mão...
Põe-me as mãos no sexo,
Beija-me na coxa,
Abre-me no plexo,
Uma ferida roxa.
Eu não sei porquê,
Meu dês d´onde venho,
Sou o ser que vê
Só o seu tamanho.
Põe a tua mão
Num laço sem fim,
E chega ao desvão,
Abre-o para mim.
Mário Cesariny
Beija-me na coxa,
Abre-me no plexo,
Uma ferida roxa.
Eu não sei porquê,
Meu dês d´onde venho,
Sou o ser que vê
Só o seu tamanho.
Põe a tua mão
Num laço sem fim,
E chega ao desvão,
Abre-o para mim.
Mário Cesariny
ontem chovia copiosamente. molhou todos os beijos que demos. as nossas roupas pingaram de tanto amor que fizemos. amor, quero-te...
Sua Excelência: o Amor
Sentado alto do trono
Bem alto, no pedestal,
Amor superior se sente
Diz-se nobre como tal
Veste pele de cordeiro
Quando decide atacar
Deixa as presas indefesas
Cercadas pelo seu olhar
É doce, enganador,
Muito terno, explosivo
Quando quer, arrebatador,
Cruel, se achar preciso
Pode reflectir um anjo
Em seu nome ser demónio
Tudo que enche uma vida
Ser na tristeza o antónimo
É lindo vê-lo a correr
À procura do verdadeiro
Mover mundos e fundos
Quer ele ser o primeiro
Tanto se fala do amor,
Bem, mal, por tudo e nada
Vou guardar o que sei p’ra mim
Deixar-me ficar calada
Anyta, 2009.12.15
p.s. este poema tem a assinatura de uma poetisa tirsense. obrigada, Maria! obrigada, Anyta!
Sentado alto do trono
Bem alto, no pedestal,
Amor superior se sente
Diz-se nobre como tal
Veste pele de cordeiro
Quando decide atacar
Deixa as presas indefesas
Cercadas pelo seu olhar
É doce, enganador,
Muito terno, explosivo
Quando quer, arrebatador,
Cruel, se achar preciso
Pode reflectir um anjo
Em seu nome ser demónio
Tudo que enche uma vida
Ser na tristeza o antónimo
É lindo vê-lo a correr
À procura do verdadeiro
Mover mundos e fundos
Quer ele ser o primeiro
Tanto se fala do amor,
Bem, mal, por tudo e nada
Vou guardar o que sei p’ra mim
Deixar-me ficar calada
Anyta, 2009.12.15
p.s. este poema tem a assinatura de uma poetisa tirsense. obrigada, Maria! obrigada, Anyta!
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
"nove semanas e meia" edita e agradece...
Luís Vendeirinho
"Quando a poesia está na rua há um estranho que traz amor nos bolsos rotos, o vento é feito de esperança, a chuva cai como gomos de alegria sobre o chão macio, quando a poesia está na rua não há portas nas casas, nem janelas cerradas no olhar das crianças, quando a poesia está na rua abrigo-me da minha solidão sob a árvore onde se colhem palavas como beijos, sob cuja sombra se beija como quem diz o nome das coisas para ser inscrito em forma de nuvem, e a poesia é a rua e todos os passos envoltos nas esquinas de que ela é feita..." LV (Abraço de parabéns)
"Quando a poesia está na rua há um estranho que traz amor nos bolsos rotos, o vento é feito de esperança, a chuva cai como gomos de alegria sobre o chão macio, quando a poesia está na rua não há portas nas casas, nem janelas cerradas no olhar das crianças, quando a poesia está na rua abrigo-me da minha solidão sob a árvore onde se colhem palavas como beijos, sob cuja sombra se beija como quem diz o nome das coisas para ser inscrito em forma de nuvem, e a poesia é a rua e todos os passos envoltos nas esquinas de que ela é feita..." LV (Abraço de parabéns)
maria, muito obrigada! "nove semanas e meia" deseja a todos os enamorados um excelente "dia dos namorados" e sugere o uso e abuso da poesia, para revelar "sentidos" escondidos em beijos e carícias... viva o amor e viva quem o diz!
Desespero
Inteiramente o perdeu.
E só pensa em procurar
nos lábios que se lhe oferecem
de sucessivos amantes
esses lábios desejados;
e preso num outro abraço
de cada amante se encontra,
só procura a ilusão
de que a ele se entrega
como tanto se entregou.
Inteiramente o perdeu.
Como se nunca existira.
Ele queria -ao que então disse -
poder ainda "salvar-se"
desse terrível estigma
da vergonha que é prazer.
Porque ainda estava a tempo
de fugir e de "salvar-se".
Inteiramente o perdeu.
Como se nunca existira.
Por força do imaginar,
alucinado e iludido,
nos lábios de outros amantes
só procura descobri-lo,
nesses lábios encontrar
a paixão que conheceu.
1923 Contantino Cavafy (traduzido por Jorge de Sena)
13 de Fevereiro de 2011 17:41
Inteiramente o perdeu.
E só pensa em procurar
nos lábios que se lhe oferecem
de sucessivos amantes
esses lábios desejados;
e preso num outro abraço
de cada amante se encontra,
só procura a ilusão
de que a ele se entrega
como tanto se entregou.
Inteiramente o perdeu.
Como se nunca existira.
Ele queria -ao que então disse -
poder ainda "salvar-se"
desse terrível estigma
da vergonha que é prazer.
Porque ainda estava a tempo
de fugir e de "salvar-se".
Inteiramente o perdeu.
Como se nunca existira.
Por força do imaginar,
alucinado e iludido,
nos lábios de outros amantes
só procura descobri-lo,
nesses lábios encontrar
a paixão que conheceu.
1923 Contantino Cavafy (traduzido por Jorge de Sena)
13 de Fevereiro de 2011 17:41
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