sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

sugeriste um beijo na face [e eu dei] depois desse beijo surgiu outro [que eu também dei] agora deixo a imaginação livre para os suspiros e as [sugestões]

Sim, dizias tu, mas em seguida
corrigiste: talvez. Esta
é a única palavra
que não tem casa. Que mora
no intervalo
entre o som e o silêncio.

Albano Martins

conforme havia sido prometido, eis a lista dos livros que irão povoar o imaginário de "nove semanas e meia"

O POETA NU
[poesia reunida]
Jorge Sousa Braga
Assírio & Alvim

366 POEMAS QUE FALAM DE AMOR
uma antologia organizada por
Vasco Graça Moura
Quetzal Editores

E COMO ERAM AS LIGAS DE MADAME BOVARY?
Francisco Umbral
Campo das Letras

PALINÓDIAS,
PALIMPSESTOS
Albano Martins
Campo das Letras

POEMAS
COM CINEMA
antologia organizada por
Joana Matos Frias
Luís Miguel Queirós
Rosa Maria Martelo
Assírio & Alvim

DO MUNDO GREGO OUTRO SOL
antologia Palatina e antologia de planudes
selecção, tradução e notas
Albano Martins
Edições ASA

A MUSA IRREGULAR
Fernando Asis Pacheco
Assírio & Alvim

MORTAL E ROSA
Francisco Umbral
Campo da Literatura

 ...quanto ao conteúdo de cada obra aguardem, pois "nove semanas e meia" tem todo o prazer de vos proporcionar "deliciosas" leituras! 

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

"nove semanas e meia" já possui uma mini-biblioteca (amanhã daremos conta dos títulos) - obrigada Alberto Serra

POEMA



Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura


Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco.


Mário Cesariny de Vasconcelos

finjo não ver... finjo não querer... finjo ainda que prefira despir a mentira...

DE:   CAFÉ

                                       (Finjo que não vejo as mulheres
                                       que passam, mas vejo.)

De súbito, o diabinho que me dançava nos olhos,
mal viu a menina atravessar a rua,
saltou num ímpeto de besouro
e despiu-a toda...

E a Que-Sempre-Tanto-Se-Recata
ficou nua,
sonambulamente nua,
com um seio de ouro
e outro de prata.

José Gomes Ferreira

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

balanço e avanço... recuo perante a tua indiferença... dissolvo a paixão em mim

O INCONSTANTE

Os meus olhos partiram
atrás duma morena
que passou.

Era de nácar negro,
da cor das uvas roxas,
e açoitou-me o sangue
com sua cauda de fogo.

Atrás de todas
eu vou.

Passou uma clara loira
como uma planta de ouro
balanceando os seus dons.
E a minha boca foi
como uma onda
desferindo em seu peito
relâmpagos de sangue.

Atrás de todas
eu vou.

Mas para ti, sem me mover,
sem te ver, à distância,
vão meu sangue e meus beijos,
morena e clara minha,
alta e pequena minha,
larga e delgada minha,
minha feia e formosa,
feita de todo o ouro
e de toda a prata,
feita de todo o trigo
e de toda a terra,
feita de toda a água
das ondas do mar,
feita para os meus braços,
feita para os meus beijos,
feita para a minha alma.

Pablo Neruda

suspendo o beijo... quero-o inteiro e sem pressa... tenho os lábios entreabertos e o coração inquieto por te saber aqui (tão perto)

O OLEIRO

Há em todo o teu corpo
uma taça ou doçura a mim destinada.

Quando levanto a mão
encontro em cada lugar uma pomba
que andava à minha procura, como
se te houvessem, meu amor, feito de argila
para as minhas mãos de oleiro.

Os teus joelhos, os teus seios,
a tua cintura,
faltam em mim como no côncavo
duma terra sedenta
a que retiraram
uma forma,
e, juntos,
estamos completos como um só rio,
como um só areal.

Pablo Neruda

viajando... com os pés em terra húmida e as mãos ao longo da tua pele

A PERGUNTA

Amor, uma pergunta minha
dilacerou-te.

Regressei a ti
da incerteza com espinhos.

Quero-te direita como
a espada ou o caminho.

Mas tu insistes
em manter uma curva
de sombra de que não gosto.

Meu amor,
compreende-me,
quero tudo o que é teu,
dos olhos aos pés, às unhas,
por dentro,
toda a claridade, que escondias.

Sou eu, meu amor,
quem bate à tua porta.
Não é um fantasma, não é
o que um dia parou
à tua janela.
Eu deito a porta abaixo:
eu entro na tua vida:
venho viver na tua alma:
tu não podes comigo.

Tens que abrir todas as portas,
tens que obedecer-me,
tens que abrir os olhos
para eu os observar,
tens que ver como ando
com passos pesados
por todos os caminhos
que, cegos, me esperavam.

Não tenhas medo,
sou teu,
mas
não sou viajante nem mendigo,
sou o teu senhor,
aquele que esperavas,
e agora entro
na tua vida
para não mais sair,
amor, amor, amor,
para ficar.

Pablo Neruda