terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

...de um rio confuso

MOMENTO

Chegado o momento
em que tudo é tudo
de teus pés ao ventre
das ancas à nuca
ouve-se a torrente
de um rio confuso
Levanta-se o vento
Comparece a Lua
Entre línguas e dentes
este Sol nocturno
Nos teus quatro membros
de curvos arbustos
lavra um só incêndio
que se torna muitos
Candente silêncio
sob o que murmuras
Por fora     por dentro
do bosque do púbis
crepitam-me os dedos
tocando alaúde
nas cordas dos nervos
a que reduzes
Assim o momento
em que tudo é tudo
Mais concretamente
água    fogo     música 

David MF


>>>> "nas cordas dos nervos" andam tantos; com razão ou sem ela, apela-se à emoção para ultrapassar os momentos em que a agitação provoca alguma turbação e quiça, perturbação...  

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

...alguns sinais

AUSÊNCIA

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais _ um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser
complicadas, quando nos damos conta da
diferença entre o sonho e a realidade. Porém,
é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-te de ti, agora que
os dias correm mais depressa, as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim _ e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.

Nuno Júdice

escuto o silêncio das palavras

O AMOR, DIZES-ME

Escuto o silêncio das palavras. O seu silêncio
suspenso dos gestos com que elas desenham
cada objecto, cada pessoa, ou as próprias ideias
que delas dependem. Por vezes, porém, as
palavras são o próprio silêncio. Nascem
de uma espera, de um instante de atenção, da
súbita fixidez dos olhos amados, como se
também houvesse coisas que não precisam de
palavras para existir. É o caso deste sentimento
que nasce entre um e outro ser, que apenas
se adivinha enquanto todos falam, em volta,
e que de súbito se confessa, traduzindo em
breves palavras a sua silenciosa verdade.


>>>> ainda "na sombra" quanto ao tema desta edição, continuamos a deixar pistas e "in"suspeitas deixas quanto ao mesmo. enquanto não se vê claramente os contornos da "nossa rua", sugere-se a viagem pela poesia do "amor" - o calendário dos dias indica que o dia 14 de fevereiro, é dos enamorados. "a poesia está na rua" vai deixar "rumores" desses amores por estas bandas. aproveitem, os enamorados e os que estão em vias de ficarem...  

...puxo o teu corpo

ATÉ AO FIM

Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

Nuno Júdice

amo-te

RETRATO

Amo-te; e o teu corpo dobra-se,
no espelho da memória, à luz
frouxa da lâmpada que nos
esconde. Puxo-te para fora
da moldura: o teu rosto branco
abre um sorriso de água, e
cais sobre mim, como o
tronco suave da noite, para
que te abrace até de madrugada,
quando o sono te fecha os olhos
e o espelho, vazio, me obriga
a olhar-te no reflexo do poema.

Nuno Júdice

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

«...cacho de curvas...»

INSCRIÇÃO ESTIVAL

Ó grande plenitude!
                              E a tudo,
a tudo alheio,
                     saboreio.
Absorto
             sorvo
este cacho de curvas
                                tão maduras...
Este cacho de curvas que é o teu corpo!

David MF

...um poema líquido

VOTO

Que o fosso da memória se transponha,
que seja a solidão atravessada!
Da cálida crisálida renasça
de novo para o corpo o corpo todo!

Venham as roucas sílabas da posse
no búzio dos ouvidos enroladas!
Sobre a teia das veias implapáveis,
reconstrua-se a cúpula dos olhos!

Que tudo agora súbito se emprenhe
da realidade que a lembrança apenas
em folha de álbum, ressequida, guarda!

Que eu vá de novo decorar-te a seiva,
como um poema líquido que seja
urgente recitar na eternidade!

David MF