VOTO
Que o fosso da memória se transponha,
que seja a solidão atravessada!
Da cálida crisálida renasça
de novo para o corpo o corpo todo!
Venham as roucas sílabas da posse
no búzio dos ouvidos enroladas!
Sobre a teia das veias implapáveis,
reconstrua-se a cúpula dos olhos!
Que tudo agora súbito se emprenhe
da realidade que a lembrança apenas
em folha de álbum, ressequida, guarda!
Que eu vá de novo decorar-te a seiva,
como um poema líquido que seja
urgente recitar na eternidade!
David MF
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
...não é possível escapar ao vício da leitura, e, muito menos quando se trata de David Mourão-Ferreira
SONETO DOS QUARTOS DE ALUGUER
O amor é só de quem os olhos cerra
no desalmado instante da entrega.
Cerrai-vos, olhos meus, antes que cega
vos cegue a lucidez que nos faz guerra.
Cerrai-vos, olhos meus, que os indiscretos
são punidos com leis muito severas.
Cerrados, sentireis... que primaveras!
Abertos, que vereis senão objectos?
E que abjectos objectos! tão prosaicos!:
tapetes de aluguar com flor´s manchadas;
entre os pés do biombo, continuadas
as tábuas do soalho por mosaicos...
...Sempre esse frio sórdido, a seguir
ao fogo em que nos qu´remos consumir!
O amor é só de quem os olhos cerra
no desalmado instante da entrega.
Cerrai-vos, olhos meus, antes que cega
vos cegue a lucidez que nos faz guerra.
Cerrai-vos, olhos meus, que os indiscretos
são punidos com leis muito severas.
Cerrados, sentireis... que primaveras!
Abertos, que vereis senão objectos?
E que abjectos objectos! tão prosaicos!:
tapetes de aluguar com flor´s manchadas;
entre os pés do biombo, continuadas
as tábuas do soalho por mosaicos...
...Sempre esse frio sórdido, a seguir
ao fogo em que nos qu´remos consumir!
quinta-feira, 27 de janeiro de 2011
o programa "a poesia está na rua" está animado. recebeu das mãos da CM «música de cama» de David Mourão-Ferreira. malta, devem preparar o vosso canto...
MINUTO
O amor? Seria o fruto
trincado até mais não ser?
(Mas para lá do prazer
a Vida estava de luto...)
Fui plantar o coração
no infinito: uma flor...
(Mas para lá do fervor
a vida gritou que não!)
O amor? Nem flor nem fruto.
(Tudo quanto em nós vibrara
parecia pronto a ceder...)
Foi apenas um minuto:
a fome intensa, tão rara!,
de ser criança, ou morrer...
>>> obrigado MC
O amor? Seria o fruto
trincado até mais não ser?
(Mas para lá do prazer
a Vida estava de luto...)
Fui plantar o coração
no infinito: uma flor...
(Mas para lá do fervor
a vida gritou que não!)
O amor? Nem flor nem fruto.
(Tudo quanto em nós vibrara
parecia pronto a ceder...)
Foi apenas um minuto:
a fome intensa, tão rara!,
de ser criança, ou morrer...
>>> obrigado MC
...o que está vago?
VAGAR
Dobro a esquina
do abraço
a lume posto
Doce de amora
de ponto
desatado
Dispo o vestido
no vagar do corpo
preencho de prazer o que está vago
>>> talvez "a poesia está na rua" deva fazer a revelação do nome do autor destes textos. talvez o autor não aprecie, tanto anonimato e secretismo em volta da sua poesia. por outro lado, a não revelação do nome, permite viajar "por todos os nomes" cuja escrita possua «corpos com asas e seiva de paixão»
Dobro a esquina
do abraço
a lume posto
Doce de amora
de ponto
desatado
Dispo o vestido
no vagar do corpo
preencho de prazer o que está vago
>>> talvez "a poesia está na rua" deva fazer a revelação do nome do autor destes textos. talvez o autor não aprecie, tanto anonimato e secretismo em volta da sua poesia. por outro lado, a não revelação do nome, permite viajar "por todos os nomes" cuja escrita possua «corpos com asas e seiva de paixão»
convoco para a poesia...
OS NOSSOS DIAS
Convoco-te
Contorno-te
Comovo-me
Com o teu corpo
delgado
na memória
As tuas ancas estreitas
nesta nossa história
Os teus pulsos morenos
com sabor a vitória
Convoco-te
Contorno-te
Comovo-me
Com o teu corpo
delgado
na memória
As tuas ancas estreitas
nesta nossa história
Os teus pulsos morenos
com sabor a vitória
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
não é sempre mas, pode ser...
E POR VEZES
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos ocanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
David Mourão Ferreira
Matura Idade 1973
Antologia Poética
Publicações D. Quixote, 1983
a poesia está na rua oferece uma
camélia branca à CM
em troca deste poema. Obrigado...
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos ocanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
David Mourão Ferreira
Matura Idade 1973
Antologia Poética
Publicações D. Quixote, 1983
a poesia está na rua oferece uma
camélia branca à CM
em troca deste poema. Obrigado...
a flor eleita da poesia - a camélia
(...)
teria sido tão fácil isto
digo eu agora
tudo estava preparado para a tua chegada
o café os discos os livros as camélias
que me deste na manhã dos meus vinte anos
o vão de escada onde me pediste fica
mas isso aconteceu há muito tempo
quando ainda havia sebes e laranjeiras bravas
e o jardim não se tinha transformado
em condomínio privado com guardas
no exacto local onde um dia desdobrámos o corpo
para o primeiro conhecimento do amor
isso aconteceu quando ainda mal sabíamos
desprender da boca as palavras necessárias
por isso não percebi que seria na cinza desses dias
que viria reclamar a tua vida
a minha única maneira de desenhar por ti
a eternidade
(...)
Dois Corpos Tombando na Água
Alice Vieira
teria sido tão fácil isto
digo eu agora
tudo estava preparado para a tua chegada
o café os discos os livros as camélias
que me deste na manhã dos meus vinte anos
o vão de escada onde me pediste fica
mas isso aconteceu há muito tempo
quando ainda havia sebes e laranjeiras bravas
e o jardim não se tinha transformado
em condomínio privado com guardas
no exacto local onde um dia desdobrámos o corpo
para o primeiro conhecimento do amor
isso aconteceu quando ainda mal sabíamos
desprender da boca as palavras necessárias
por isso não percebi que seria na cinza desses dias
que viria reclamar a tua vida
a minha única maneira de desenhar por ti
a eternidade
(...)
Dois Corpos Tombando na Água
Alice Vieira
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