quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

sem mapa e sem sinais... a viagem

 CORPO

É pêssego
Tangerina
E é limão

Tem sabor a damasco
e a alperce

Toma o gosto da canela
de manhã
e à noite a framboesa que se despe

Da maçã guarda o pecado
e a sedução

Do mel
o açucar que reveste

Do licor
a febre que no seu rasgão
me invade, me inunda e me apetece

Mergulho depressa a minha boca
e bebo a sede
que em mim já cresce

Delírio que me enche
de prazer
tomando ponto num lume que humedece
Devagar mexo sem tino
as minhas mãos

Provando de ti
o que de ti viesse

O anis do esperma
o doce odor do pão
que o teu corpo espalha e enlouquece

>>> brevemente será feita a revelação...

deitada sobre o luar acordo e sigo viagem por cima de ti...

TURBAÇÃO


Não podendo suster
tanto apetite
tanta vontade de te morder
a boca

Se estás longe procuro
outra maneira
de te tocar e toda a pressa é pouca
Desço os pulsos e afasto
os meus joelhos

Subo os dedos
e toco a minha folha

Entreabro os lábios
e não querendo é já
uma rosa doce
que a minha mão desfolha


>>> mantenho o véu sobre a autoria de tão belos textos

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

...e mais um para confirmar as suspeitas!

ETERNIDADE

Será a tua cama
a minha cama
aquela onde revolvo
um sono acidentado?

Onde dormes de lado
ou vigias
o modo alheio que a madrugada
abre

Será tua a proposta
deste encontro
ou será meu este amor
que arde?

Uma flor de fogo
que incendeia
a nossa cama antes do fim
da tarde

Se é tua a dúvida
e minha esta certeza
daquilo que despimos
e na cama tarda?

O vestido descendo pelas ancas
sendo
da sede o que segura
e na seda aguarda

Será tua a vitória
e minha esta derrota
de não poder segurar-te
a vida inteira?

Por mais que queira
a eternidade guarda
o tempo que por ela
já se esgueira

>> e a resposta é...

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

aplausos, para a senhora que se segue...

FLOR DA BOCA

És tentação permanente
à minha beira

Beijos rasos
à flor das bocas

Húmidas as duas
e as duas loucas
A do corpo mais que a da face
inteira

Inteiramente tuas
de maneira
que quando a tua língua
se incendeia

pega fogo ao desejo
e logo a chama
galgando em si própria
já se ateia

Trepando devastando
e só no topo
é grito e orgasmo
e é madeira



>>>>> desafio os seguidores deste blog, a adivinharem o nome do(a) autor(a) do texto

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

e outro mais...

TRÊS PEDRAS NA MÃO


Três pedras na mão:
uma branca, uma azul, outra amarela.

As superstições da minha noite branca de centauro
azuis como o cheiro da terra
amarelas como a curva quente do teu ventre,
o silêncio telúrico a penetrar nas veias
no tropel do vento erguendo-se a esperança
mosto do tempo
já noite puída, feculenta
que guardo entre as páginas do breviário
onde registo os perfis minuciosos
do teu frondoso amor.

Três pedras na mão:
uma branca, outra negra, outra vermelha.

Fernando Alves dos Santos
1928.1992

curioso é o "três..."

TRÊS COISAS

Cansado já de tudo
Cansado de amar
Nada mais tenho que um modo
de existir respirar

Já não sei aonde ir
Nem sei de onde venho
Queimei-me de existir
Cinzas agora tenho

Perdi meu coração
Paguei-o como peça
de fogo enfim carvão
Tornada fumo a cabeça

Persegui como um cego
três coisas sem piedade
respiração e depois
prazer e obscuridade

(poemas mudados para português por Herberto Helder)

«/.../ em todas as ruas te encontro /.../»

POEMA

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny